No final do ano de 2005 tivemos oportunidade de coordenar a pesquisa denominada “Diagnóstico do Terceiro Setor de Belo Horizonte”, onde, depois de levantados no Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas todos os registros existentes de associações e fundações da Capital mineira, excluídas aquelas que não eram consideradas benemerentes: clubes sociais; times de futebol; associações de classe; igrejas; partidos políticos e condomínios de edifícios, foi realizada visita pessoal em cada uma das organizações registradas, por um pesquisador que entrevistou os principais dirigentes de tais entidades.

A pesquisa que teve a coordenação científica feita pela Fundação Instituto de Pesquisas de São Paulo (FIPE/SP), teve sua metodologia e execução realizados pelas universidades Federal/MG, PUC/MG; UNI/BH; UNA e UNIFENAS. E foi até hoje a única nesses moldes: censitária, quantitativa e qualitativa.

Dados impressionantes foram colhidos, tabulados e depois de análise transmitidos a órgãos governamentais, empresariais e do terceiro setor.

Ficou demonstrado que àquela época a Capital de Minas (apenas a Cidade, não incluída região metropolitana) abrigava quase mil e quinhentas (1.500) instituições benemerentes as quais empregavam de carteira assinada mais de trinta e quatro mil (34.000) empregados e tinham outros tantos trabalhadores voluntários. Para se ter uma ideia de comparação, toda a indústria mineradora do Estado, naquele mesmo período, empregava próximo de vinte e oito mil (28.000) pessoas de carteira assinada (6.000 a menos do que a empregabilidade do Terceiro Setor apenas na Capital). Movimentou naquele ano, o Terceiro Setor de Belo Horizonte, a quantia correspondente a um e meio por cento (1 e ½ %) do PIB do Município.

Comprovou-se que apenas cerca de trinta e cinco por cento (35%) das organizações sem fins de lucro se utilizavam de recursos públicos para exercerem suas atividades e que em todo o Estado de Minas Gerais 77,8% das internações hospitalares do SUS foram feitas por hospitais filantrópicos: um milhão de internações (dados da Secretaria de Estado da Saúde).

Insofismável a importância econômica e política do terceiro setor. Gerador de emprego e renda e prestador de serviço público de qualidade a baixo custo. Falando especialmente da área de saúde e sem aprofundar na pesquisa vale lembrar que são do terceiro setor na capital mineira: Santa Casa/São Lucas; Mario Pena/Luxemburgo; Baleia; Sofia Feldman; Felicio Rocho; Madre Teresa; Evangélico, dentre outros, sem contar que o Pronto Socorro de Venda Nova é administrado por uma fundação de direito privado.

Nas áreas de educação e assistência social se repete o volume e a qualidade dos serviços, sempre a um custo bem menor do que o do serviço público chamado de “gratuito”.

Esse o lado bom do terceiro setor, gera emprego e renda e atende a demandas sociais e ambientais sem interesse político ou financeiro para seus dirigentes/gestores.

Entretanto o Diagnóstico nos trouxe outros dados não tão animadores ou favoráveis no que se refere ao terceiro setor. Avaliando aquelas que tivessem Estatuto de acordo com a lei; previsão de eleição e recondução de dirigentes; previsão de prestação de contas a quem quer que fosse; órgão de controle interno; orçamento, planejamento e avaliação de ações e projetos e considerando que as que preenchessem tais requisitos estariam “aptas a contratar”, fomos surpreendidos negativamente com o dado de que menos de 10% das organizações, cerca de 120, cumpriam tais requisitos. Dados assustadores.

Após muito debate e avaliação para interpretar tais números, concluiu-se que os problemas decorriam de duas situações em especial: Administração amadora e falta de transparência, aliada a uma baixa auto-estima generalizada. Com raríssimas exceções, os gestores entendem que as organizações que dirigem são favorecidas pelo Estado quando recebem verbas ou bens públicos, se esquecendo de que o grande beneficiário de seus trabalhos é o próprio Estado.

A gestão amadora, combinada com a falta de autoconfiança e transparência motivam, com certeza a quase que total ignorância da população sobre a importância do setor e favorece à “demonização” que a mídia, explicita e implicitamente, de forma continua estabelece para as chamadas “ongs”.

Decorrente dessas situações, após mais de dois anos de debates e ajustes, surgiu o CEMAIS, com o fim de: capacitar, qualificar, monitorar, avaliar e certificar o Terceiro Setor. Passados já quase dez anos, após alguns “incidentes de percurso” e “desvios de rota”, embora sempre tendo em mira o aprimoramento do Terceiro Setor e o estabelecimento das alianças intersetoriais, retorna o referido Instituto com maior vigor na prática de suas ideias originais e que motivaram sua própria existência.

Com os grandes encontros anuais de alcance nacional, oficinas e grupos de debates, especialmente as “rodadas do conhecimento” e cursos de aprimoramento que o Centro tem promovido acreditamos que em breve teremos uma resposta positiva das organizações, as quais, ampliando conhecimentos e se “autoconhecendo” poderão fazer gestões profissionais e transparentes, garantindo fonte de recursos diversificados e maior atendimento das importantes demandas que com tanta dedicação já estão fazendo, além do necessário e urgente reconhecimento e respeito de toda a população.

Participar e divulgar este trabalho do CEMAIS, para mim, é antes de tudo um exercício e um dever de cidadania.